A Deficiência na Novela

Na próxima sexta-feira (14 de maio), termina a novela Viver a Vida, da Rede Globo. Nesses momentos finais, é oportuno fazermos uma reflexão um pouco mais aprofundada sobre este folhetim que colocou a deficiência em seu foco central. Sendo deficiente e profissional atuante no tema, acredito que a novela, como tudo, tem dois lados e é dessa forma que deve ser analisada.


Considero que o ponto positivo mais essencial foi o fato da trama ter trazido o assunto à tona, com a força e o alcance que são peculiares às telenovelas. O que acabou pautando não só a grande mídia, mas também veículos regionais, Brasil a fora. E, como sabemos que nossas novelas são poderosos produtos de exportação, esses bons reflexos deverão, daqui a um tempo, estar ecoando até mesmo em outros continentes.


Já os depoimentos verídicos, ao final de cada capítulo, também foram bastante enriquecedores. Certamente, propiciaram “reflexões em horário nobre” em diversos lares. Ao assistir, era impossível não se emocionar e, acima de tudo, pensar sobre o quanto somos, dependendo da ocasião, frágeis e fortes diante das adversidades da vida. E que a felicidade é, na maioria das vezes, uma opção de cada um e que, na medida do possível, deve ser construída dia a dia.


Mas, como nem tudo são flores, tenho que ressaltar também os pontos negativos. O pior deles foi o fato da novela ter sido extremamente elitista (aliás, uma característica comum aos enredos de Manoel Carlos). As facilidades e os luxos vivenciados pela personagem Luciana definitivamente não fazem parte da vida do deficiente brasileiro. Pelo menos, da absoluta maioria.


Seguem só os exemplos mais gritantes: cirurgia particular e no exterior, equipe médica multidisciplinar e à disposição 24 horas – além de duas casas perfeitamente adaptadas, com direito à cama que funciona por comando de voz.


Quanto aos relacionamentos interpessoais, não resisto a alguns comentários. A incansável solidariedade da família (sem haver uma reclamação, sequer) e a fartura de pretendentes amorosos seguramente não condizem com a realidade de uma pessoa com deficiência. Sem falar, que o folhetim em nenhum momento mostrou as dificuldades que encontramos para, por exemplo, estudar ou conseguir emprego.


Só espero que, no final, a novela não promova o “restabelecimento completo” de Luciana, vendendo a imagem de que um “final feliz” só é possível sem deficiência, como outros folhetins já fizeram.


Porém, de modo geral, reafirmo a importância da novela ter colocado o tema na berlinda. É comum ouvirmos o assunto repercutindo em escolas, universidades, empresas e nas conversas cotidianas. E com prazer, me coloco à disposição. Quero continuar sendo um dos facilitadores desse relevante diálogo.


* Eduardo Ravasini é Jornalista, Assessor de Imprensa (Colégio Sedes Sapientiae, Associação Comunidade de Mãos Dadas – ACMD e SEMEP/BS), Palestrante sobre Inclusão e Consultor da Profil – Soluções em Gestão de Pessoas.


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