Aerton Paiva dá entrevista exclusiva à ACMD


Aerton Paiva, que participou da abertura do Seminário da ACMD, em 21 de Novembro, concedeu uma entrevista exclusiva para a ACMD. Nela, ele expõe alguns conceitos relacionados à Responsabilidade Social e ao Desenvolvimento Sustentável, além de ressaltar iniciativas relacionadas a esses temas.



 


ACMD – Como começou o seu envolvimento com a Responsabilidade Social das Empresas?



Aerton – Começou no final de 2003. Estava concluindo uma nova graduação (em ciências sociais) e fui convidado a fazer um mestrado. Escolhi o tema formação étnica do Brasil e, dentro deste tema, a questão quilombola. Num trabalho de campo, onde passei 2 meses viajando pelo Brasil e 1 mês morando com os quilombolas do Estado do Amapá, ao retornar resolvi desistir do mestrado e iniciar um processo de ajuda às 30 comunidades quilombolas do Estado. Pensei que a vivência de auxiliar grandes empresas (indústrias e bancos) no campo do planejamento estratégico, mais a bagagem da sociologia que acabara de ter recebido nos últimos 5 anos, teria condições de iniciar um processo de juntar os conhecimentos no campo da gestão com as questões econômicas, sociais e ambientais. Continuo até hoje apoiando aquelas comunidades, com o apoio da Fundação Avina. De lá para cá, a presença da responsabilidade social e do desenvolvimento sustentável veio ganhando corpo nas nossas ações internas da consultoria (walk the talk). Passamos a apoiar voluntariamente o Instituto Ethos no planejamento Estratégico. Me tornei Líder Avina e junto a esta instituição estamos realizando trabalhos voluntários no Vale do Jequitinhonha. Apoiamos voluntariamente instituições como a ACMD no campo do planejamento e, mais recentemente, o foco de negócios da empresa sofreu uma guinada, quando então resolvemos nos dedicar especificamente à questão da Sustentabilidade. Estamos com um projeto na Natura para a definição de uma régua de sustentabilidade para a empresa toda e com outros projetos em empresas de outros segmentos. É um prazer poder se realizar pessoalmente e profissionalmente ao mesmo tempo, construindo um mundo diferente para as futuras gerações.



ACMD – No seminário da ACMD, o senhor vai falar a respeito do envolvimento dos empresários no movimento de Responsabilidade Social e a atuação em rede. Como vê a conscientização do empresariado brasileiro atualmente?



Aerton – Vejo que está crescendo. Muito motivado pelas crises éticas que nosso País passou nos últimos anos, pela crescente preocupação com o meio ambiente. Mas ainda há muito por fazer, principalmente no que tange aos empresários entenderem que suas empresas têm uma função social e ambiental, além da econômica. Entender que não é terceirizando a solução dos problemas globais através do pagamento dos impostos ou dos empregos gerados que resolveremos a situação. Os passivos sociais e ambientais se acumulam a taxas muito maiores do que aquelas que estamos habituados a pensar em termos de empresas. Exige união, não competição, foco, planejamento, simplicidade nas soluções. Mais do que assinar cheque doando recursos, é preciso se envolver com a aplicação dos recursos disponibilizados. Incentivar a empresa a ter uma causa junto ao negócio, a estimular os funcionários a se envolver com a causa da empresa e criarem suas próprias causas. Tudo isso ao ser colocado no plano de uma empresa pode parecer pouco. Mas se isso se tornar um comportamento dos empresários, os resultados podem ser muito significativos.



ACMD – Na sua opinião, quais são as maneiras para aumentar esse engajamento?



Aerton – Eu poderia falar de diversas formas e métodos. Mas o tempo me mostrou que a questão é de “dentro para fora”. O empresário precisa num dado momento deixar o “clic” acontecer. Uma vez, perguntei ao fundador da Fundação Avina do porque para alguns empresários não precisamos dedicar muito esforço para fazê-lo ver a necessidade de seu envolvimento e, para outros, o esforço é enorme. Ele disse, simplesmente, o seguinte: “para os primeiros, a necessidade de se envolver é óbvia”. É disso o que precisamos: de mais pessoas que achem tudo isso óbvio. Não é óbvio que quanto maiores os passivos sociais, pior para as empresas ? Não é óbvio que quanto maiores os passivos ambientais, pior para os negócios ? Pois é, as informações, os estudos estão ai, comprovando tudo isso. O que precisa agora, a meu ver, é sair do gabinete e ir a campo. Sair do escritório e entender melhor o nosso País, viajar por ele, entender o enorme potencial que temos em termos criativos, diversidade, vontade, inspiração. Precisamos olhar para o “lado cheio do copo” que temos.



ACMD – Comente um pouco sobre o conceito de Desenvolvimento Sustentável, desenvolvimento orgânico e sua relação com a Responsabilidade Social?



Aerton – São todos correlacionados. O Desenvolvimento sustentável refere-se mais ao efeito de uma atuação responsável. Esta atuação garante que as empresas tenham lucro sem gerar passivos sociais e ambientais, o que é sustentável. A este processo, chamamos simplesmente de desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento orgânico creio ser mais um conjunto de palavras que não me dizem além do óbvio. Orgânico leva a pensar que há uma conexão não hierárquica entre os elementos, que o todo é um todo e não a mera soma das partes. Essa é a lógica da sustentabilidade, ou seja, estamos todos no mesmo barco, porém esse barco não pode ser como hoje, 2/3 “Navio Negreiro” e 1/3 “Queen Mary”. Isso não se sustenta.



ACMD – Dando consultoria para a empresa Natura, você aplicou o conceito da Régua e do Cockpit de Sustentabilidade. É uma criação sua? Explique esses conceitos?



Aerton – SIm. É uma criação nossa. A questão da sustentabilidade envolve diversos compromissos (aproximadamente 30 atualmente). Todos esses compromissos devem ser rebatidos em requerimentos para o negócio que, por sua vez, precisam de itens de verificação, no sentido de verificar se a empresa está seguindo ou não aquilo o que os diversos representantes da sociedade (partes interessadas) estão solicitando delas no campo da sustentabilidade. Ao mesmo tempo, a materialização das ações ocorre nas áreas, nos processos, nas regiões, nos produtos e, tudo isso, aponta para as diretrizes estratégicas da empresa. A régua da sustentabilidade foi materializada sob a forma de um sistema de informações onde tudo isso é informado e, a partir daí, se cria um Cockpit, como instrumentos de um avião onde se pode analisar o estágio atual, simular o resultado de ações, etc…



ACMD – Além de suas atividades profissionais, você exerce uma série de iniciativas voluntárias no Terceiro Setor. Quais são suas formas de atuação?



Aerton – Sim. Isso representa hoje praticamente 50% do meu tempo, se não mais. Infelizmente não dá para atender a todas as organizações que nos procuram, portanto, estamos atualmente trabalhando cada vez mais no sentido de atender a conjuntos de organizações que estejam atuando com uma perspectiva de “lugar” e não temas. Ou seja, a partir dos trabalhos realizados em Araçuaí (MG) no Vale do Jequitinhonha, com diversas organizações como CPCD, AVINA, IPEC, IPEP, IPA, SAUDE E ALEGRIA, EXPEDIÇÃO VAGA LUME, BAMCRUZ, RECICLAR T3, IMCA, RADIO MARGARIDA, dentre outras, todas elas organizações sérias e com tecnologias sociais comprováveis, criamos um conceito de “mandala” de tecnologias sociais e que nos mostrou que é mais fácil lidar sistemicamente com as questões do desenvolvimento, envolvendo diversas ONGs e Empresas simultaneamente, do que atuar ONG por ONG. Paralelamente, identificamos que a maioria das ONGs tinham problemas de gestão, e criamos uma nova ONG chamada GESTO que serve como plataforma de terceirização destes serviços a baixo custo. Paralelamente também, identificamos que a maiorias delas tinha um problema para captar recursos e gerenciar a aplicação em projetos e estamos agora criando uma nova plataforma para fazer isso. Por fim, para aquelas ONGs que identificamos que tem potencial para comercializar suas tecnologias para o mundo privado, criamos o conceito de Ecossistema de Empresas sustentáveis, onde estes serviços e produtos constituem o foco de uma organização privada que repassa seus resultados para seu lado ONG.