Árvore da Vida

Estamos vivendo na era planetária. O homem ultrapassou os limites terrenos e alcançou o espaço, conquistou a gravidade numa aventura científica e tecnológica sem precedentes. Hoje observamos o Universo com lentes potentes, que nos permitem ir cada vez mais longe. Podemos ver explosões estelares, supernovas, criação e destruição de galáxias, buracos negros, nebulosas, estrelas anãs e muito mais.

Ficamos encantados quando olhamos para a imagem do nosso planeta azul, captadas por lentes fotográficas de astronautas solitários e fascinados com tamanha beleza! Lentes que captam a luz refletida do sol, fonte de vida e energia, que envolve e alimenta esse organismo imponente que navega no espaço sideral com toda a sua majestade e que chamamos de Terra.

Essa é a verdadeira imagem da árvore cósmica que decora as nossas casas, com os seus símbolos expressando em sua forma cerimonial, a conexão perfeita da humanidade com os ritmos da Terra e de um céu com estrelas cintilantes. Este verdadeiro festival sazonal é comemorado no mundo inteiro e está diretamente relacionado com o crescimento das plantas, a morte do velho, o nascimento do novo, a fertilidade das pessoas, dos animais, numa total e plena relação de interdependência. Essa é a verdadeira magia do Natal!

É nesse ambiente sagrado que devemos meditar e refletir sobre o desenvolvimento humano, através da contemplação serena e honesta dos nossos flagelos. O atual estágio da revolução científica e tecnológica nos dá a falsa ilusão de que decolamos! Mas paradoxalmente, a nave está sem piloto, não temos mapa de vôo e o combustível vai acabar. O nosso planeta está na rota do colapso com a perda da sua sustentabilidade, devido à insanidade da ambição humana.

Estamos praticando uma ecologia social e mental insalubre, através da ilusão do eu. Substituímos a consciência do humano por um comportamento caracterizado pela ganância, individualismo, hiper-competitividade, inveja, gerando ódio e violência. O resultado desses passos errados é um mundo de desigualdades, de oportunismos e oportunistas, um mundo de sofrimento pessoal e interpessoal, que afetam a nossa auto-estima e a nossa saúde.

Muitas vezes falamos em ecologia pensando que ela está relacionada com o meio ambiente externo, com as queimadas, desmatamentos, poluição dos rios, mares etc. Entretanto não somos conscientes que, antes, produzimos tudo isto em nossas mentes. Os nossos cérebros são, hoje, em sua maior parte, um campo de ervas daninhas.

Estamos matando as sementes da Árvore da Vida. Segundo o relatório anual do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado recentemente, 45% das crianças e dos adolescentes em nosso país vivem abaixo da linha de pobreza. Isso significa que, de todos os 60,3 milhões de brasileiros com menos de 18 anos, 27,4 milhões vêm de famílias em que cada membro sobrevive com menos de R$ 4,33 por dia (menos de meio salário mínimo por mês). Como se isso não bastasse, o relatório anual da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), afirma que uma criança morre de fome a cada cinco segundos no mundo. O documento ainda revela que o número de subnutridos no planeta voltou a aumentar após ter caído nos anos de 1990.

Como disse o grande médico neurologista e fundador da psicanálise, Sigmund Freud: “A criança é o pai do homem”. As crianças são as sementes da Árvore da Vida e, sem elas, não haverá futuro.

Precisamos fazer uma autópsia na galinha dos ovos de ouro, nas palavras da futurista Hazel Henderson. Necessitamos, urgente, redescobrir o verdadeiro sentido da palavra consciência, que deriva de duas outras palavras: do verbo latino scire, que significa “saber”, e da preposição cum, que significa “com”. Etimologicamente, portanto, consciência significa “saber com”. Saber é um verbo, que pede ação; e com é uma preposição, que pede união, união entre duas palavras, dois indivíduos.

Podemos concluir então, que uma nova consciência exige ação com união. União entre as raças, entre os homens, mulheres, organizações, poder público, empresas e toda a comunidade planetária.

Precisamos superar os nossos egos e adubar as nossas mentes com o húmus e a umidade da nossa humildade, caminhando em busca de uma nova vida, com pleno equilíbrio ecológico e saboreando o milagre da fotossíntese solar, para que as nossas raízes possam extrair a riqueza mineral da terra e, juntos, possamos adubar a semente da Árvore da Vida.

Segundo Anaximandro, um dos três filósofos de Mileto, “tudo que nasce na natureza contrai um débito. Débito este, que deve ser pago diluindo-se, para que outras coisas possam continuar existindo”. Este, é a essência do pensamento ecológico. Quando nascemos e tivemos o privilégio de vir para esse mundo, assumimos um débito. Temos que pagá-lo deixando os nossos resíduos, não apenas os orgânicos, mas principalmente, os resíduos do nosso conhecimento, da nossa sabedoria, nossas experiências, tecnologias e, principalmente, os resíduos da nossa generosidade e compaixão; para que possam alimentar as futuras gerações, os nossos filhos e, os filhos dos nossos filhos, na busca de um futuro auto-sustentável, quando poderemos, verdadeiramente, desejar para todas as crianças do nosso planeta um… Feliz Natal!