Caminho das Índias – Marilu Martinelli fala sobre a novela e sobre o Grupo de Estudo que realiza na ACMD

No último dia 17 de junho, a ACMD contou com a presença de Marilu Martinelli, conduzindo o primeiro encontro do Grupo de Estudos que aborda a cultura da Índia. O fio condutor desse trabalho é a novela Caminho das Índias, numa oportunidade única de mergulhar nos costumes milenares desse país cheio de sabedoria. O próximo encontro será dia 1° de julho.


Marilu é especialista em filosofia oriental e mitologia universal. Atriz, jornalista e apresentadora de TV, Marilu deixou a carreira artística quando teve uma experiência espiritual que transformou sua vida há cerca de 20 anos. A partir disso, mergulhou neste universo de ampliação do nível de consciência, colaborando com a construção de um mundo melhor para todos. Hoje, ela atua como comunicóloga, escritora, conferencista internacional, educadora, professora de Filosofia Oriental e Mitologia Universal. É também consultora para Formação do Educador em Valores Humanos e Formação de Lideranças Empresariais e Comunitárias em Valores Humanos. Professora na área de Mestrado da UNIPAZ – SP e UNIBEM de Curitiba. Professora convidada da Universidade Católica de Arequipa-Peru e Universidade Federal de Lima- Peru.


Leia abaixo a entrevista concedida para a ACMD e participe do segundo encontro do Grupo de Estudos!


ACMD: De modo geral, como vê a abordagem que a novela “Caminho das Índias”, da Rede Globo, vem fazendo sobre a Cultura Indiana?
Marilu:
Eu penso que a novela está desempenhando bem a tarefa que lhe cabe como folhetim que é, não pretende se aprofundar na cultura indiana, está mostrando algumas curiosidades, alguns costumes e até um pouco da filosofia e religiosidade hinduísta. Apesar de algumas falhas e exageros. Acho que a novela abre caminho para um encontro entre culturas o que é sempre muito bom.


ACMD: Alguns especialistas já se manifestaram dizendo que está havendo um pouco de banalização desta cultura na novela? Qual é a sua opinião? Se possível, dê alguns exemplos práticos.
Marilu: A abordagem é superficial porque o foco é o enredo, a Índia funciona como pano de fundo, além do mais, não se trata de um documentário, ou estudo étnico cultural, mas de entretenimento. Porém, pretendendo dar leveza e fazer humor existem cenas que mostram as superstições e crendices de alguns personagens de maneira exagerada. Por exemplo, um personagem entra em pânico porque ao sair para trabalhar encontra uma tartaruga passando pelo portão de sua casa. Ora, uma das coisas mais difíceis é encontrar numa cidade indiana é uma tartaruga passeando na calçada. Para os supersticiosos, a tartaruga significa mau agouro porque é lenta, assim como para muitos ocidentais o gato preto é sinal de má sorte, porque está associado à bruxaria. Para falar das superstições bastava colocar na fala de algum personagem, sem forçar situações inverossímeis. Numa outra cena, determinado personagem deixa uma vaca entrar em sua loja de tecidos e a alimenta dentro do estabelecimento, isso não aconteceria, ele até poderia alimentar a vaca, mas fora da loja. Outro exagero é a tirania dos mais velhos, isso não é norma. Os mais velhos são sempre acatados e respeitados, mas na novela eles são terríveis…


ACMD: Quais os pontos positivos da novela, em relação a propiciar uma maior disseminação do conhecimento da cultura indiana, para a população em geral?
Marilu: Penso que a novela instiga a curiosidade sobre a Índia de modo geral, e para aqueles que desejem se aprofundar na cultura o caminho é ler, estudar os fundamentos filosóficos, a riquíssima mitologia e conhecer as práticas ritualísticas sagradas do hinduísmo, Muitas pessoas estão querendo viajar para a Índia estimuladas pela novela. Viajar é uma excelente forma de interagir com o diferente e desconhecido, mas é preciso ir de coração desarmado e ter olhos descontaminados de preconceitos para poder usufruir da beleza e profundidade de um país milenar e acolher seu povo e aproveitar o esplendor da sua cultura.


ACMD: Um assunto que sempre gera polêmica é o fato dos casamentos serem arranjados pelas famílias. Como relacionar isso com a liberdade de escolha e com a felicidade humana?
Marilu: A felicidade humana implica reflexão sobre o que é verdadeiramente importante na vida. A liberdade de escolha está condicionada a isso. Até que ponto as nossas escolhas têm criado condições adequadas para termos vidas mais felizes, livres e dignas de serem vividas? Escolhas pessoais e sociais são guiadas por valores. Trata-se de uma questão ética e cultural. Para a cultura indiana o casamento é o alicerce da sociedade. O casamento hindu é visto como um ritual que desencadeia uma força que está além dos noivos. É um ato de louvor e respeito pela natureza, obediência ao Dharma, a Lei Cósmica Eterna, e uma celebração de preservação da vida. Os pais ao escolherem os parceiros para seus filhos acreditam que estão sendo inspirados e orientados pelos astros e pelo universo para que a continuidade de sua descendência seja feliz e digna de bênçãos. Eles acreditam que o amor e o respeito entre duas pessoas é construído na convivência, e com o passar do tempo se fortalece cada vez mais. O noivo e a noiva quando se casam aceitam a união como uma missão. Essa missão é fazer do seu parceiro(a), uma pessoa feliz, realizada e próspera. Para eles, o amor nasce morno e com o correr do tempo vai esquentando até tornar-se uma chama ardente alimentada diariamente pelo carinho, respeito e atenção mútuos. Para o hinduísmo no casamento você perpetua sua ancestralidade.


ACMD: Sabemos que grande parte da população daquele país vive em situação de pobreza.  Como vê o fato da novela passar a imagem de um povo indiano que vive ostentando riquezas? E como relacionar isso ao lado espiritual?
Marilu:
A Índia apesar do seu grande  desenvolvimento econômico e tecnológico atual continua tendo grande parte de sua população sobrevivendo dentro de  extrema pobreza. O governo tem procurado investir em educação, saúde e moradia como prioridades, mas resolver os problemas de um bilhão e meio de habitantes não é tarefa fácil. É um país de paradoxos e discrepâncias. A parte mais abastada da sociedade vive realmente com muito luxo, e os contrastes são evidentes. Aliás, para nós isso é familiar, afinal o mesmo acontece na nossa sociedade. A espiritualidade é uma dimensão natural do potencial humano, e os indianos acreditam que Deus está em tudo e em todos, não separam Deus do mundo. Para eles, todos nós somos portadores da chama divina o “Ishta Devata” e esse presença divina nos guia a consciência para que possamos percorrer os caminhos que nos conduzem à liberação de medos e limitações. Por isso, nessa tradição não existe catequese. O Segundo eles, os desvalidos devem ser ajudados, para ter sua carga aliviada, mas se nasceu nessa condição está resgatando erros de outras vidas e aprendendo nessas novas lições e adquirindo novas capacidades. Quem conhece a Índia se espanta com a alegria e a leveza do seu povo, mesmo os muito pobres e até mesmo mendigos emanam aceitação. A espiritualidade ensina a aceitar os reveses e buscar soluções compatíveis, é um povo muito crente no poder da não-violência como elemento transformador. As estatísticas revelam que apesar dos descompassos sociais e econômicos o índice de violência e criminalidade de modo geral, na sociedade indiana esteja entre dos mais baixos do mundo.


ACMD: Qual a sua visão sobre as castas? Mesmo com a mudança na Constituição da Índia, essa divisão ainda é forte? Atualmente, se fala muito em igualdade entre os seres humanos e respeito à diversidade. Como compreender essa divisão que aparentemente exclui uma parcela da sociedade indiana?
Marilu: As castas foram criadas baseadas na descrição alegórica e mitológica da criação e formação social. Na verdad,e seria a busca de uma organização social formada pela definição das aptidões de cada grupo social, ou seja, os bramanes, seriam os filósofos, sacerdotes, professores, intelectuais versados nas escrituras sagradas, poetas, escritores e artistas. Os kshatryas, os com talentos para governar, liderar e administrar, os militares, e os industriais. Os vayshias seriam aqueles com talento para o comércio, produtores agrícolas e artesanais, os responsáveis pela circulação de mercadorias para gerar riqueza e prosperidade social. Os sudras seriam os operários, trabalhadores braçais e serviçais de modo geral. Os dalhits, ou párias aparecem como os excluídos da sociedade, são considerados impuros, limpam esgotos, latrinas, recolhem excrementos de animais, catam jóias nos crematórios públicos, e são intocáveis, vivem isolados. É realmente uma nódoa social das mais graves na Índia moderna. O Mahatma Gandhi com a independência eliminou essa classificação social e lutou arduamente para conseguir a inclusão social dos párias. Ele, juntamente com sua esposa e seguidores, faziam o trabalho atribuído aos dalhits, visitavam suas casas, conversavam com eles, comiam junto com suas famílias ensinando que não era admissível excluir e execrar seres humanos. A compreensão distorcida e o olhar contaminado pela ignorância cultural e espiritual de alguns seguimentos da sociedade, que temerosos de perder seus privilégios ainda se aferram as castas, alimentando essa divisão. Afinal não se apaga uma visão de mundo por decreto e, por isso, a separação entre as castas, apesar de anti-constituciona, ainda é praticada por parte da sociedade hindu. Penso que a tendência das castas é desaparecer pelas lições, conquistas e erros que correspondem à dinâmica do processo civilizatório.


ACMD: Qual seria a forma mais fácil, em sua opinião, de nós ocidentais compreendermos a cultura indiana e respeitarmos as suas diferenças?
Marilu: Para compreender e respeitar qualquer cultura diferente da nossa, é necessário julgar menos e olhar costumes e tradições como fonte de aprendizado.  É preciso buscar o que nos aproxima e não o que nos afasta, enfim encontrar o ponto de encontro e não buscar o confronto. A diversidade das escolhas humanas devem ser compreendidas por meio de uma abordagem integral da vida, de Deus, do universo e tudo mais.


ACMD: De modo geral, que tipo de conhecimento a pessoa que participar desse Grupo de Estudos da ACMD irá adquirir?
Marilu: Quem se dispuser a conhecer mais profundamente essa cultura milenar viverá seguramente experiências transformadoras, pois conhecer sempre modifica o que é conhecido e vivenciar o novo e surpreendente acrescenta mais brilho e beleza a nossa vida. A filosofia, a mitologia e a espiritualidade da cultura indiana fascinam e abrem portas para a revisão de valores e conceitos. Quem participar certamente não se arrependerá, porque essa cultura nos permite ver a vida sob perspectivas profundas e enriquecedoras.


ACMD: Em sua opinião, o que nós ocidentais deveríamos aprender com a cultura da Índia? E praticar no dia-a-dia?
Marilu: Sem duvida, a reverência pela vida. Em qualquer campo de interesse sejam negócios, ciências, educação, psicologia, medicina, artes etc, ou simplesmente o aprendizado diário adquirem maior beleza e importância quando sentimos reverência pela vida. Isso influencia literalmente tudo, desde a busca espiritual até o êxito profissional e a qualidade das relações humanas.


ACMD: Do ponto de vista das relações interpessoais, o que mais lhe chama a atenção na cultura indiana?
Marilu:
O respeito, o carinho e a alegria. O povo indiano tem a capacidade de estar presente por inteiro naquilo que está fazendo. Isso confere mais qualidade ao que se faz e quando interagimos com as demais pessoas as valorizamos mais; é como se aquele momento fosse único e maravilhoso porque ambos estão trocando energias e sairão desse encontro melhores, e sabendo mais sobre si mesmo. Para o hindu, Deus é imanente, vive e pulsa em tudo e todos. Cada ser humano é uma manifestação divina e a natureza é a roupagem exterior de Deus. Eles procuram a conexão com a inteligência universal, procuram fugir das artimanhas do ego-personalidade que nos afasta uns dos outros e nos torna incapazes de perceber pelo egoísmo o mal que infligimos a nós mesmos e aos outros. De forma inspiradora, os hindus procuram descobrir qual o nosso verdadeiro “Eu” e fazer dessa descoberta o meio de construir a própria felicidade e a felicidade dos outros. Esse para eles é o modo adequado de criarmos juntos um mundo melhor e viver em harmonia com tudo que existe.


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