Comunicação e poder

Até que a morte os separe! Esta é a natureza da relação entre comunicação e poder. Para o bem e para o mal, o casamento é inevitável.


Poder é inerente à vida. Comunicação também. E a relação entre ambos define que tipo de vida temos. Pode ser uma união que promova o bem comum. Ou um casamento do tipo egoísta e inconsequente, focado na satisfação do interesse próprio.


Em tempos de eleição, pesquisas, horário eleitoral gratuito e uma avalanche de informações, vale a pena estar atento às várias modalidades de união entre poder e comunicação.


Existe um tipo de poder que é expressado e efetivo. É o poder na prática. Caracteriza-se por traduzir de forma objetiva aquilo que se deseja realizar. Projeta-se para fora de nós. Exige esforço e empenho na obtenção de metas. Tem velocidade, objetividade, autoria e resultados. Por estas razões, é um tipo de poder muito valorizado. Mas é limitado. Só pode ser exercido dentro das fronteiras do cargo, da função, das metas e objetivos do cenário estabelecido. Quando esta fronteira é ultrapassada, a liderança se transforma em um ditador que se sobrepõe aos outros. Ou em um déspota que, segundo Montesquieu, além de estar focado exclusivamente no atendimento de seus próprios interesses e caprichos usurpa o poder, não por se sobrepor aos outros, mas sim porque acaba minando a capacidade do povo se expressar e se autogovernar, por medo ou por não saber o que fazer.


Há um outro poder, de natureza oculta. Enquanto o poder expressado é impositivo, este é sedutor. Se aquele é competente, este é inteligente. Não se trata de realizar objetivamente o que eu quero, e sim de saber direcionar o outro para que ele deseje fazer. Sendo assim, não requer esforço de realização, pois levo o outro a executar. É de natureza lenta, tem mais densidade, convence e estimula os resultados. Seus limites vão além do cenário onde atuo e se amplia até onde o outro pode ir.


Porém, quando a função do outro se reduz ao atendimento dos meus próprios interesses, trata-se de manipulação no que há de pior neste termo. Por outro lado, quando o poder oculto é acionado como forma de direcionar e promover o bem comum, transforma-se em inspiração e educação. Quem inspira não executa, mas influencia o outro a realizar. Por ser de natureza sutil, nem sempre esta influência é publicamente reconhecida, e isso incomoda os que têm necessidade de autoria, controle e vaidade excessiva no reconhecimento dos resultados. Vem à tona a tentação de afirmar: ‘Isto se deve a mim!’ Mesmo que tenha sido o outro a executar.  É o desafio de compartilhar poder.


Há um poder de natureza pessoal, individual, fundamentado no mérito e nas conquistas pessoais. Há também um poder delegado, resultado da confiança e do reconhecimento na autoridade do outro, um poder que tece teias de relações. Como expressão dos vestígios animais da nossa herança evolutiva, deseja-se o poder para mandar, para ter o prazer de atender às próprias necessidades, mesmo tendo que subjugar o outro. Quando o poder se humaniza, sua dimensão coletiva e altruísta se revela, e a autoridade se traduz em consciência para servir ao outro, à humanidade. O animal em nós deseja o poder para mandar, o humano para servir.


Porém, há que se considerar também um poder de natureza ilimitada, o poder transcendente do qual nem temos total consciência. ‘Trans’ significa ir além, romper fronteiras. Ocorre quando ultrapassamos os limites do poder expressado e do poder oculto. É o poder acionado por aquele motorista de trator que, diante das câmeras de televisão, se recusou a derrubar uma casa por não acreditar que aquela seria uma ação justa. Acima das regras vigentes, a emergência ética da sua consciência mudou o rumo dos acontecimentos. Ou aquele pai que, em um passeio por um parque temático, aciona coragem e força impensáveis para abrir a boca de um jacaré e dali retirar seu filho. Ou o cientista que, contrariando o status quo, tem a coragem de propor uma nova via para a produção do conhecimento. Ou o funcionário da empresa que, diante de um dilema do dia a dia, assume riscos e decide pelo melhor, mesmo que não haja regras explícitas descrevendo o que deveria fazer.


Este tipo de poder é simplesmente incorporado, brota do âmago da consciência, transformando seres humanos comuns em seres extraordinários – que transcendem, vão além do ordinário, do cotidiano medíocre e anestesiado em que permanecemos aprisionados à alternância entre o interesse próprio e os interesses do outro.


O poder transcendente é um potencial humano disponível para todos. É quando acionamos a coragem de nos tornamos autônomos em relação às nossas ações, acolhendo as influências recebidas com discernimento, liberdade e responsabilidade, mediados por uma ética maior. Em época de definição do nosso futuro comum, de louvor à democracia, é bom lembrar destes diferentes níveis de poder e identificar o que estamos praticando.


Há uma nação anestesiada, com alguns poucos momentos de lucidez. Assistimos a um conjunto de pesquisas que se equivocam ao perguntar, ao analisar o conteúdo das respostas, e não se sentem responsáveis por isso – se autodefinem como neutras! Como se fosse possível ter neutralidade ao apresentar gráficos quantitativos e resultados percentuais: não querem admitir sua dimensão de poder.
Ao mesmo tempo, assistimos a uma mídia paralisada divulgando informações sem agregar inteligência e lucidez. Um processo de comunicação que conhece o poder que tem e negocia isso a preço de ouro – é só checar as tabelas de veiculação ou o cachê cobrado pelas celebridades. Mas este poder não vem sendo acionado com o propósito humano de servir, de inspirar, de transformar, de construir o benéfico. Parece que recuperar esta dimensão de poder e responsabilidade da mídia tem se confundido com a subordinação a um código que restringe a liberdade de expressão.


Não se trata disso. Assumir este poder é vincular-se a uma ética maior, que leva a mídia a ultrapassar as amarras da informação, ir além da repetição ‘papagaística’ dos fatos transformados em notícia, transgredir a mediocridade vigente. Admitir o poder de influenciar, educar e conduzir, reconhecendo esta dimensão poderosa e inerente à atividade de comunicação. Praticar este poder com lucidez, coragem e discernimento. Isso é possível e necessário.


Também assistimos paralisados a um presidente da república que se esqueceu que é presidente de todos os brasileiros, incluindo também os que têm outras crenças e opiniões, e decidiu se comportar como cabo eleitoral, criando uma candidatura e transferindo votos para ela. Sem dúvida ser presidente é expressão de poder, porém limitado às fronteiras do cargo. Um presidente não pode usar seu cargo, as instituições e os recursos do Brasil e dos brasileiros para apoiar uma candidatura, pois democraticamente ela nunca será a candidatura de todos os brasileiros. Isso é falta de equanimidade e ética na política. Como cidadão, ele pode e deve exercitar seu poder de escolha. Como presidente, seu poder limitado pelo cargo deve ser exercitado no sentido de garantir a liberdade de escolha, e não de induzir a realização da sua própria vontade, fazendo o povo acreditar que sem isso a catástrofe virá.


Também assistimos inertes à maciça votação de um palhaço. Alguém que com muita simplicidade disse: ‘Você não sabe o que acontece lá no Congresso? Nem eu. Vote em mim e eu te conto.’ E as pessoas votaram. Mas este argumento nos faz pensar: se nos últimos tempos a mídia não fala de outra coisa, como é que as pessoas não sabem o acontece lá no Congresso? No que consiste esta comunicação? Não discuto quem é melhor ou pior, se este ou aquele candidato. Falo de nosso estado anestesiado, da inércia da comunicação, da ilusão de um voto sem consciência humana de servir e de uma mídia deslocada da sua dimensão de poder.


Aconteça o que acontecer, a vida continua depois das eleições. Vamos seguir vivendo como sempre fizemos. Mas vale a pena aproveitar a oportunidade para amadurecer e assumirmos todos, com coragem e lucidez, a nossa imensa dimensão de poder como seres humanos, cidadãos brasileiros e, quiçá, profissionais de comunicação.


Regina Migliori dedica-se a desenvolver o potencial ético e sustentável das pessoas, organizações e comunidades, integrando diferentes áreas de atuação; é consultora em Cultura de Paz da Unesco; coordena o Núcleo de Pesquisas do Cérebro e da Consciência e o Laboratório de Neuro-Desenvolvimento vinculados ao Instituto Migliori e Fundação Douglas Andriani; membro-fundador do Instituto de Estudos do Futuro e da Rede Paz; Conselheira da rede Nós da Comunicação; coordenou o MBA em Ética, Valores e Sustentabilidade na FGV e em outras instituições; doutoranda em Epistemologia e História da Ciência na Universidade Nacional de Tres de Febrero em Buenos Aires; pós-graduada em Neuropsicologia pela UNIFESP; bacharel em Direito e Letras; criadora de uma metodologia para desenvolvimento da inteligência ética e sustentável, aplicada em empresas, governos e instituições do terceiro setor; autora de livros, programas de e-learning e articulista em diversos meios de comunicação.  


*Regina Migliori foi uma das pioneiras em atuar na área de valores e cultura de paz. É educadora, advogada e escritora; Diretora do Instituto Migliori; consultora em Cultura de Paz da Unesco; membro-fundador do Instituto de Estudos do Futuro; membro do Conselho Consultivo do Portal Nós da Comunicação. Foi Diretora da Fundação Peirópolis, Coordenou o MBA em Gestão com foco em Ética, Valores e Sustentabilidade na Fundação Getúlio Vargas e programas de pós-graduação em Ética, Valores e Sustentabilidade em outras instituições; atua como consultora para governos, empresas e ONGs; é autora de livros, CD-ROMs e programas de e-learning. Participou como palestrante nas vivências da ACMD.


* Os conceitos e opiniões emitidos neste artigo são de inteira responsabilidade da autora.



Fonte: Instituto Migliori.