Cuidando do Jardim

O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você.
Mário Quintana


Nunca fui muito de refletir sobre a minha vida, muito menos como ela afeta as outras pessoas a minha volta e o ambiente em que vivo. Aliás, sempre fugi dessas reflexões mais “profundas”, talvez por medo de trazer à tona problemas, questões ou dúvidas para as quais não tivesse respostas.


Apenas vivia cada dia fazendo o que julgava necessário e tomando atitudes que nem sempre eram as que eu queria, mas que acreditava que as outras pessoas achariam as mais adequadas. Assim, fui apagando minhas opiniões e sonhos, empurrando meus pensamentos, mais e mais fundo numa região que o ser humano tem, muita vezes, receio de navegar: você mesmo.


Era preciso mudar, mas como? Eu costumo crer que na vida nada é por acaso. E não foi, por acaso, que recebi um convite para, literalmente, vivenciar uma nova experiência (Nova? Essa palavra me dá calafrios). Só de imaginar que passaria quatro dias longe de minha família — meu porto seguro — para conviver com dezenove pessoas diferentes — e desconhecidas — num lugar estranho. E para me deixar mais angustiada, não fazia ideia direito do que iria acontecer. Entretanto, tinha uma certeza: teria que ser eu mesma. Mas quem era eu mesma? Como disse, nunca tinha pensado nisso.


É desta vez não tinha jeito, teria que parar de correr atrás das borboletas e cuidar do meu jardim. Foi assim que embarquei no expresso da Transformação rumo a um lugar mágico chamado Fazenda Furquilha.


A Capela
Quem não planta um jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.
Rubem Alves


Era o nosso segundo dia naquele lugar encantador. Eu caminhava, com o grupo guiado por uma sábia que ia à frente, em uma estradinha de terra cheia de pedrinhas que faziam um barulhinho gostoso quando pisava nelas. Para mim, todos os sons: das pedras debaixo dos meus pés, dos pássaros e do vento — que não passava de uma brisa que vinha suavizar o sol que brilhava majestoso naquela manhã — eram como música nos meus ouvidos. Ouvidos acostumados aos estridentes sons da cidade. Para completar esse cenário do paraíso, reinava logo ao lado um belo lago — ou seria um espelho. Era sim um espelho, que refletia o céu, aproximando-o de nós. Eu era pura tranquilidade.


Então, a sábia parou. Minha cabeça que tentava processar tudo que via e sentia demorou a perceber o que havia naquela campina de luz. Localizado bem em frente aos meus olhos estava um templo. Uma construção hexagonal que registrava todos os sonhos e crenças da humanidade. Sentada neste lugar, ouvindo palavra por palavra o que a sábia dizia, eu percebi como estava feliz em estar ali, compartilhando o momento com aquelas pessoas, que há dois dias eram estranhas para mim, mas que naquele instante já as via como parte do meu ser, do meu mundo, do nosso mundo. Não éramos mais fragmentos da humanidade, mas a humanidade, que demonstrava que não tinha medo de dividir e viver sem vergonha de ser feliz.


O silêncio
“Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.”
Rubem Alves


Tudo começou com um trato. Aliás, tratos é o que mais estou acostumada a fazer, principalmente, aqueles relacionados comigo mesma — e, diga-se de passagem, poucas vezes consegui cumpri-los. Mas esse trato, especificamente, não dependia só de mim, e o que eu fizesse poderia atrapalhar, além do meu, o processo de outras pessoas. Então, estava disposta a cumprir o acordo, mesmo sabendo que não seria fácil.


Geralmente, quando falamos com as pessoas não ficamos muito atentos a detalhes. Algumas vezes, na correria do dia-a-dia falamos, falamos e falamos, porém, nem olhamos para a outra (ou outro) que está escutando. No silêncio, a experiência da comunicação é diferente. O simples fato de não poder usar a fala me fez perceber como é importante ficar atenta a pequenos gestos. Um olhar, um mexer de mãos, uma sobrancelha arqueada, um sorriso tudo queria dizer algo durante as horas que ficamos em silêncio.


O cuidado para interpretar cada gesto tornava a comunicação cada vez mais interessante. Nunca tinha percebido como era fundamental cada ação minha e a do outro também. Jamais tinha visto com tanta clareza como o meu corpo se expressava. E, se um dia antes eu havia descoberto a tranqüilidade e a felicidade dentro de mim, nesta manhã eu aprendi como elas se mostram, sem precisar dizer uma palavra. 
 
A borboleta
“Todas as coisas se transformam, nós também nos transformamos com elas.”
Matthias Borbonius


Dia após dia da Vivência, eu me dei conta que como é vital o respeito ao próximo — e quando digo respeito, não é simplesmente dar um bom dia, boa noite ou olá. Isso é importante, mas não é tudo. Respeitar o próximo é saber lidar com as diferenças, não é impor suas vontades e opiniões, e sim ouvir o que ele tem para dizer e ver ali experiências que podem auxiliar na construção da nossa história.


Aliás, foi conversando com um dos participantes que eu me dei conta que as fraquezas que mais me afligiam poderiam se tornar meus pontos fortes. E que meus pontos fortes poderiam ser tornar fraquezas se eu não soubesse lidar com eles. Talvez nunca tivesse me dado conta disso, se acima de tudo não tivesse me dado a oportunidade de vivenciar esses dias com a mente e coração abertos.


Por falar nisso, você sabe qual é a flor que nasce no coração de cada um de nós?


* Elaine Saraiva é, atualmente, estagiária de Comunicação Social da ACMD. E foi participante da última Vivência.