Deborah Okida: “O político encontrará no terceiro setor um aliado, mas nunca um substituto”

A jornalista santista Deborah Salles Okida é uma das principais autoridades na gestão do chamado terceiro setor na Baixada Santista. Atuando na área desde 1996, é atualmente coordenadora executiva da Associação Comunidade de Mãos Dadas (ACMD), responsável, dentre outras atividades, pelo projeto Destinação Criança. Nesta entrevista, ela fala sobre as ações da ONG e também sobre como deve ser a relação políticos/terceiro setor:


Quais são as principais ações da ACMD no momento?
A ACMD passou recentemente por mais um processo de amadurecimento através de uma revisão de sua atuação. De tempos em tempos sempre fazemos essa “re-visita” para podermos ampliar e fortalecer a organização. Com esse trabalho, a ACMD passou a organizar sua atuação através de três grandes programas: ‘Conhecimento em Suas Mãos’, ‘Mãos na Consciência’ e ‘Mãos Dadas em Ação’. Em cada um deles procuramos ter uma visão mais sistêmica, buscando atender questões sociais, ambientais e econômicas, já que tudo está inter-relacionado.


Quais os avanços e retrocessos que você vê nas políticas voltadas a criança e adolescente?
Estamos justamente no ano em que o Estatuto da Criança e do Adolescente completa a sua maioridade. É bem verdade que ainda há muito a fazer e o estatuto precisa ser melhor compreendido e implantado, mas sempre que “sai do papel”, vemos boas iniciativas acontecendo, como é o caso do NAI (Núcleo de Atendimento Integrado) em São Carlos e agora em Santos. Não vejo retrocesso, mas penso que ainda falta muito engajamento, pois as políticas públicas só se constroem através do envolvimento de todos os segmentos da sociedade. Por isso, acho que os conselhos de direitos são instrumentos poderosos nos municípios. Onde são atuantes, conseguem grandes avanços. Santos tem um bom exemplo recente disso com o Centro de Diagnóstico que é conduzido pela organização 30 de Julho. A ACMD, que faz parte do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Santos (CMDCA), sempre entendeu que Santos precisava de um serviço que realizasse diagnósticos confiáveis e gratuitos para verificar casos de deficiência em crianças. A empreitada só foi possível em rede, e foi no CMDCA que o terreno foi fértil para a idéia brotar. Numa primeira etapa o projeto foi mantido com recursos do fundo municipal e recentemente firmou convênio com a prefeitura para se tornar, dessa forma, uma política permanente. Um outro instrumento importante é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), desenvolvido pelo Unicef. Através desse mecanismo, é possível verificar onde cada município precisa desenvolver melhores políticas.


Qual o balanço que você faz até o momento do projeto “Destinação Criança”?
Sem sensibilização, mobilização e engajamento não será possível ampliar a arrecadação para os fundos municipais da Criança e do Adolescente. Por isso, o Destinação Criança é tão importante. Vejo como uma ferramenta primordial para viabilizar essa sensibilização e engajamento. No primeiro ano, percebemos que alguns municípios realmente ampliaram a arrecadação, mas em outros não houve tanta alteração. Penso que a rede que se formou entre os conselhos de direitos da região foi importante para dar sustentação a este projeto. A continuidade vai depender muito desse trabalho em rede.


Você acredita que os políticos têm a real noção da importância do terceiro setor no Brasil?
Muitos poucos têm. Existem mais de 250 mil organizações não governamentais no País desenvolvendo um importante papel. O político tem que perceber que encontrará no terceiro setor um aliado, mas nunca um substituto. Há algumas iniciativas interessantes surgindo, como é o caso do Nossa São Paulo (que já se replica em muitos municípios). Através de indicadores, os prefeitos têm que mostrar os avanços nas políticas. É um compromisso feito com a sociedade civil, que passa a melhor controlar o que acontece nas suas cidades. Os políticos interessados em mudanças reais precisam estar atentos a essas iniciativas e apoiar as mesmas.


Você acha que as recentes denúncias envolvendo o uso irregular de entidades do terceiro setor afetam o trabalho sério que é feito por organizações como a ACMD?
Com certeza essas denúncias afetam, mas o terceiro setor vem se estruturando e se profissionalizando, diminuindo esse tipo de interferência. No caso da ACMD, não sentimos nenhum tipo de problema. A forma como atuamos, a imagem e a credibilidade que construímos sempre nos ajudaram a manter distância desse tipo de problema. O terceiro setor hoje é um dos que mais abre postos de trabalho. Cada vez mais as empresas investem em organizações que são capazes de manter um plano de atividades, um cronograma de ações, uma boa prestação de contas. O espaço para as organizações mal intencionadas está se fechando.

Na sua opinião, de que forma o tema terceiro setor deveria ser abordado pelos candidatos a prefeito e vereador? Ações entre prefeituras e terceiro setor deveriam constar de planos de governo?
Como falei mais acima, estar atento ao trabalho do terceiro setor fará muita diferença aos candidatos. O olhar é de parceria, de trabalho em rede e de soma de esforços. Um segmento não substitui o outro, mas sim complementa. As organizações precisam estar atentas também e não deixar se influenciar por candidatos. A ACMD sempre manteve e sempre manterá sua condição apartidária. Nosso partido é a criança e o adolescente. Já apresentamos sugestões ao prefeito de Santos e também à comissão da criança da Câmara Municipal. Isso é saudável e inclusive colabora com uma construção coletiva da sociedade que queremos.



Matéria publicada na edição 164 do jornal Metrópole