Ética e Espiritualidade nas empresas: isso é real?Regina de Fátima Migliori*

Menos regulamentação governamental, aumento das operações internacionais, dificuldades com o mercado, consciência sobre diferentes instâncias de responsabilidade, tudo isso está colocando em destaque novas questões éticas. As empresas estão em busca de princípios que orientem seu comportamento no mundo dos negócios. Isso não se encontra em nenhum fornecedor. A ética empresarial não está disponível a não ser na própria consciência dos indivíduos de onde é possível retirar a ênfase em iniciativas baseadas na integridade, construir os princípios básicos da empresa e enraizá-los em valores humanos universais. Sem essas conexões não há ética empresarial.Estamos numa fase em que as empresas estão se preocupando em manter culturas éticas próprias, associando a ética aos bons negócios. Mas a repercussão da ação ética é maior do que um resultado positivo no balanço anual. O exercício ético nos leva a revoluções sociais, políticas, econômicas, tecnológicas, e vai além: a ação ética nos conduz a uma revolução espiritual. Será então que a questão é religiosa? Seguramente não. Não importa muito se a pessoa tem ou não uma crença religiosa, o que importa é que ela desenvolva uma determinação para o bem. Esta é a expressão da nossa dimensão espiritual na prática do cotidiano. Aí se enraíza a ética como a real motivação que conduz as nossas ações. A determinação para o bem é o princípio que constrói o contorno das ações éticas e estabelece profundas conexões com a fonte de valores universais: o amor.A relação entre ética e amor se dá através de uma orientação para o bem, com o qual não se pode ter outra relação que não de amor. O bem de cada situação nem sempre é a condição ideal, pode até ser o menor dos males, mas a determinação permanece intocável e renovada. É na formulação do exercício ético que nossas competências passam a expressar qualidades espirituais. Sob ótica da ética empresarial, um primeiro passo é corrigir o que há de errado. A atitude corretiva corresponde ao despertar para a necessidade de desenvolver estratégias éticas na empresa, na maioria das vezes com o propósito de corrigir ações que possam alimentar o suborno e a corrupção, a relação enganosa com o consumidor e os desastres ecológicos. Seguem-se as medidas preventivas, passando quase sempre por programas de formação ética que previnam os eventuais dissabores e prejuízos, evitando os problemas já conhecidos que prejudicam a confiança do público e contribuem para focalizar a atenção em atividades que poderiam produzir danos adicionais. Mas não basta corrigir ou ser precavido. Com isso se estabelece a construção de uma rede de sustentação ética e abre-se espaço para o grande desafio: acionar a dimensão criativa do exercício ético, indo além do remediar ou prevenir. Criar outras formas de administrar e de encaminhar as questões éticas nos negócios, transformar os hábitos e a moral das relações, renovar a cultura de empresa e os contextos das tomadas de decisões, tomar consciência da esfera global de responsabilidades da empresa sob o ponto de vista social, econômico, ambiental, legal e ético.Tarefa hercúlea? Nem tanto. Tudo fica mais simples se permanentemente nos lembrarmos que se na empresa existe uma imensa competência instalada para o gerenciamento das informações, nas mentes humanas dispomos de múltiplas inteligências capazes de construir conhecimento e solucionar desafios, e nos corações humanos dispomos de uma inesgotável fonte de sabedoria amorosa. Aciona-se tudo isso com equilíbrio e resolver as questões éticas já não fica tão difícil!* Regina de Fátima Migliori é educadora e advogada; Consultora da UNESCO em Cultura de Paz; Coordenadora do Programa de MBA com concentração em Ética e Valores Universais da Fundação Getúlio Vargas; professora convidada do núcleo de Educação Global da Universidade de Toronto. E-mail: rmigliori@uol.com.br