O Empresário e a Área Social

Neste início de Terceiro Milênio percebe-se que a preocupação com a responsabilidade social tem crescido consideravelmente. Há até bem pouco tempo, a sociedade moderna banalizava a crise social achando que toda a responsabilidade era do Governo que não conseguia cumprir com suas obrigações. A população “acostumou-se” a conviver com as desigualdades sociais e assim os problemas foram tomando proporções gigantescas e assustadoras.

Não é mais possível assistir passivamente a notícias sobre fome, miséria, crianças e adolescentes abandonados e expostos a todo tipo de violência e exploração, crimes e tantas outras “tragédias”. A sociedade civil precisa encarar sua parcela de participação nas mudanças sociais constantes de um país.

Dentre os segmentos da sociedade civil, o empresariado é aquele que mais possibilidades tem de contribuir e ajudar nas causas sociais. Muitos empresários podem dizer que participam pagando seus impostos, dando assistência a funcionários e seus filhos e gerando empregos, mas eles podem fazer muito mais.

Se a crise social é tão grave, então é preciso ações conjuntas eficazes que possam mudar esse quadro. O setor empresarial precisa se conscientizar de que os problemas são de responsabilidade de todos. Cada cidadão tem que fazer sua parte, sem esperar que o poder público resolva tudo. O empresário pode e deve assumir uma posição mais ampla que ultrapasse o limite de gerador de riquezas.

E quando se fala em colaborar para o bem-estar da sociedade, existem alguns fatores a serem considerados. Não se trata de assistencialismo ou atos que apenas aliviem a consciência. É comum encontrar pessoas que acreditam estar cumprindo com seus deveres quando dão esmolas ou um prato de comida para uma pessoa na rua. As mudanças sociais precisam ser estruturais e não imediatistas. Não adianta matar a fome hoje se amanhã a história toda se repetirá.

É preciso também diferenciar assistencialismo de solidariedade. Como dizia o sociólogo Betinho, a solidariedade é um gesto ético de alguém que quer mudar uma situação, e não perpetuá-la, já o assistencialismo é exatamente o oposto, pois não atua nas causas dos problemas, apenas ameniza temporariamente as conseqüências, ou seja, é um ciclo vicioso. E no Brasil, o assistencialismo ainda tem sido uma forma de combate usada por entidades e governos.

É claro que as mudanças estruturais não vão acontecer da noite para o dia. Por isso, todos precisam se engajar na busca de um modelo de desenvolvimento mais completo, onde a união de forças do governo e da sociedade civil leva a soluções concretas e permanentes. Assim, toda a iniciativa que é tomada hoje, contribuirá para um futuro melhor e mais justo.

Mas onde se encaixa o papel do empresário? O empresário consciente toma posições e como já foi dito, utiliza a condição de gerador de riquezas para unir forças com outros setores da sociedade e do governo. Além de recurso financeiro, as empresas dispõem de estruturas tecnológicas, administrativas e operacionais que podem ser utilizadas na busca de melhorias em diversos setores carentes.

Nesse sentido, empresários podem criar parcerias com entidades governamentais e não-governamentais, doando, assim, conhecimento e experiência para ajudar a suprir as deficiências do poder público. Todos os recursos das empresas podem servir de instrumentos para aperfeiçoar ou estruturar o trabalho na área social.

As possibilidades de atuação são inúmeras, principalmente no setor da infância e juventude, considerado prioridade nacional. Os empresários podem ajudar a desenvolver cursos de capacitação profissional; ceder espaços ociosos da empresa; criar oportunidades de trabalho-educativo para adolescentes em situação de risco pessoal ou social; promover campanhas de conscientização da sociedade civil; incentivar, dentro da própria empresa, o trabalho voluntário; evitar e denunciar a exploração do trabalho infantil e também viabilizar, estruturar e apoiar entidades de atendimento a crianças e adolescentes.

Outra possibilidade de engajamento é o envolvimento efetivo nos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCAs), ajudando a definir a política voltada à infância e juventude. Muitos não sabem, mas os CMDCAs são órgãos formados por representantes governamentais e não-governamentais e possuem poder de decisão quanto as necessidades prioritárias das crianças e adolescentes. Os empresários podem também deduzir até 1% do Imposto de Renda devido para o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente sem que isso represente ônus para sua empresa.

O engajamento na área social é possível e até mesmo essencial. É claro que cabe a cada um refletir sobre seu papel na sociedade e tomar decisões. Porém, vale ressaltar que não se pode apenas esperar que as mudanças aconteçam. É preciso participar.