O legado de Zilda Arns à região

Em julho, completaram seis meses que perdemos do nosso convívio a estimada Dra. Zilda Arns. Para nortear as reflexões que faremos a seguir, é interessante relembrar um trecho de seu último discurso.
“Como os pássaros que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, deveríamos cuidar de nossas crianças como um bem sagrado”.
Palavras repletas de simplicidade – mas que, ao mesmo tempo, mostram um profundo conhecimento sobre a essência da vida! Assim era Dra. Zilda Arns. Melhor dizendo, assim é, pois seus ensinamentos permanecem e permanecerão durante muitos anos, enriquecendo nossas mentes e corações.
Ao fundar a Pastoral da Criança, Dra. Zilda foi protagonista de uma verdadeira revolução – que vem garantindo a milhares de crianças pelo Brasil e pelo mundo, seu primeiro direito fundamental: o “Direito à Vida”. Em nosso País, particularmente, essa iniciativa conseguiu colocar a mortalidade infantil no eixo central das principais políticas públicas na área da saúde.
Fato que nos orgulha ainda mais é saber que a Baixada Santista desempenha, nesse sentido, um papel muito relevante no cenário nacional. A Pastoral da Criança na nossa Região é uma das primeiras do Brasil e, certamente, uma das mais atuantes. Está comemorando seus 25 anos.
Os índices comprovam a eficiência do trabalho. Quando a Pastoral atua o número de mortes cai pela metade. E o mais impressionante é que trata-se de uma altíssima “tecnologia social”, mas com um custo muito baixo.
Para nós, da Associação Comunidade de Mãos Dadas (ACMD), foi um verdadeiro privilégio poder vivenciar essa realidade tão de perto. Fomos conhecer a Dra. Zilda Arns, em visita à sede da Pastoral da Criança, em Curitiba, em 2003 e novamente em 2005.
Ao ser consultada sobre como o empresariado poderia colaborar com a Pastoral da Criança, Dra. Zilda citou o sonho de implantar Núcleos Multiuso nas comunidades, pois este era um projeto que não tinha conseguido implantar ainda em lugar algum. A ACMD aceitou o desafio e no mesmo ano, em novembro de 2003, em visita à Santos, Dra. Zilda inaugurou o primeiro Núcleo Multiuso.
O projeto de instalação dos Núcleos Multiuso da Pastoral da Criança só foi possível graças a uma parceria que demonstra, na prática, que o trabalho em rede é capaz de transformar verdadeiramente a realidade. Os Núcleos foram sempre viabilizados através de parcerias locais, utilizando-se de dependências já existentes – localizadas em igrejas, sociedades de melhoramento, além de outros lugares. Há também um caso diferenciado, no qual um Núcleo foi instalado dentro de um contêiner.
De 11 de novembro de 2003 a 7 de agosto de 2006, foram inaugurados, no total, 30 Núcleos, em diferentes cidades da Baixada Santista. Além disso, Dra. Zilda veio novamente a Santos, a convite da ACMD, para assinar juntamente com prefeitos da Região um Protocolo de Intenções Contra a Mortalidade Infantil.
Infelizmente, a Baixada Santista, atualmente, ainda detém a maior taxa de mortalidade Infantil do Estado. Mas, como sabiamente disse Dom Paulo Evaristo Arns, ao se manifestar publicamente sobre o falecimento de sua irmã, “não devemos perder a esperança” e temos que continuar seguindo o exemplo da Dra. Zilda Arns!


Artigo publicado no Jornal A Tribuna (A-2), em 24 de junho de 2010.


* Marcelo Bechelli Monteiro é empresário e Presidente do Conselho Deliberativo da Associação Comunidade de Mãos Dadas (ACMD).


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