O vício é jovem

A reportagem de Suzana Fonseca, publicada no jornal A Tribuna, da última segunda-feira (25), mostra uma realidade triste e que não deve ser apenas observada, mas também uma fonte de informações, para que no dia a dia, nos tornemos agentes fiscalizadores do consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes.
 
Confira a matéria:
 
Jovens com copos cheios ou carregando garrafas de bebidas alcoólicas são imagens comuns em qualquer cidade brasileira. Em Santos, eles também são vistos constantemente do lado de fora de lojas de conveniência de postos de gasolina, de estabelecimentos comerciais abertos durante a madrugada e na orla. Embora proibida, a venda desse tipo de produto para menores de idade é frequente. E as consequências são preocupantes.
 
Conforme o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), de São Paulo, o uso precoce de bebidas alcoólicas pode ter consequências duradouras. Aqueles que começam a beber antes dos 15 anos apresentam predisposição quatro vezes maior de desenvolver dependência dessa substância, do que aqueles que fizeram o primeiro uso de álcool aos 20 anos ou mais de idade.
 
“A grande maioria dos usuários de drogas começa consumindo bebidas alcoólicas”, alerta a psicóloga Elisabeth de Almeida Robalo, que é pós-graduada em Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
 
O consumo de álcool por adolescentes seria uma forma de aceitação. “Quando a pessoa usa álcool, perde a vergonha, faz qualquer coisa. A molecada acha engraçado”, analisa Elisabeth. “Se você anda na orla da praia na temporada, vê meninas e meninos de 12, 13 anos de idade, totalmente bêbados. É um número muito grande”.
 
Para a psicóloga, os pais são responsáveis por esse consumo precoce.“Falta um pouco de cuidado. Se o filho vai dormir na casa de um colega, eles não se preocupam em saber quem mais estará na casa”, critica Elisabeth.“Precisa haver um despertar das famílias para esse problema, que é muito sério”.
 
Mudança de foco
O psiquiatra Miguel Ximenes de Rezende, presidente do Departamento de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina, também adverte que os pais precisam impor limites.
 
“Quem vem de uma família um pouco mais estruturada, geralmente não envereda por esse caminho. Adolescente precisa ter regra”, afirma. “Ele tem necessidade de limites, até para aprender o certo e o errado. Esse tipo de educação ele tem que ter dentro de casa”.
 
Além de a família passar a exercer um papel mais presente na vida dos adolescentes, intensificando a vigilância sobre os jovens, a psicóloga defende iniciativas que despertem a atenção deles.
 
“O jovem tem um espírito competitivo. Ele sempre quer ser mais que os outros. É próprio do adolescente isso”,afirma Elisabeth.
 
“As famílias, escolas, entidades de bairros poderiam fazer campeonatos de esportes, dança, música, que desviassem a atenção dele e provocassem mudanças de hábitos”, exemplifica a psicóloga.“Tem que incentivar esse lado, para desviar a atenção deles do álcool”.
 
Campanha
Não bastassem as facilidades oferecidas na rua e também dentro de casa, para piorar, propagandas com personalidades famosas, mulheres de corpos esculturais e homens sarados tentam aliar o consumo de bebidas alcoólicas a um estilo de vida cuja imagem pode parecer bastante atraente para os jovens.
 
Atualmente, a Lei Federal nº 9.294/96 restringe a publicidade de bebidas com teor alcoólico acima de 13 graus Gay-Lussac, como uísque e cachaça, e deixa de lado cervejas e vinhos.
 
Para tentar coibir abusos e o consumo precoce de bebidas alcoólicas, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) entrou na briga para restringir a propaganda de produtos como cervejas e vinhos, cujo teor alcoólico fica abaixo dos 13 graus Gay-Lussac.
 
O Projeto de Lei de Iniciativa Popular quer que seja alterada a legislação, para que as restrições à publicidade passem a abranger as bebidas com graduação alcoólica igual ou superior a 0,5 grau.


Brasil é permissivo com o álcool”, diz psiquiatra
 
Coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), a psiquiatra Camila Magalhães Silveira, que também é pesquisadora do Núcleo de Epidemiologia Psiquiátrica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), participou de um estudo sobre o consumo de bebidas alcoólicas, o São Paulo Megacity, iniciado
em 2007.
 
Durante o trabalho, foram entrevistadas cerca de cinco mil pessoas em seus domicílios. “Na região metropolitana de São Paulo, a idade média de início de consumo de bebidas alcoólicas é 16 anos”.
 
Os problemas devido a esse uso, em média, têm início aos 25 anos e a dependência começa aos 35. “Quanto antes o indivíduo inicia o consumo do álcool, antes têm início os problemas e antes ele transita para o abuso”, diz ela.
 
A precocidade no consumo de bebidas alcoólicas resulta também na antecipação de problemas recorrentes na família, no trabalho e nas relações interpessoais.
 
A coordenadora do Cisa reconhece o alcance das propagandas de bebidas alcoólicas, mas faz um alerta. “Temos de tomar cuidado para não atribuir tudo às propagandas. O menor não bebe por causa dela. Bebe porque nosso País é permissivo em relação ao uso de álcool”.
 
Na avaliação de Camila, a propaganda pode incentivar o consumo. “Mas existem estudos que mostram que quando a propaganda é controlada, a influência dela é relativa. Os jovens podem ficar interessados em determinada marca por causa da propaganda”.
 
A psiquiatra também lembra que embora a venda desse tipo de bebida para menores seja proibida, essa prática é disseminada. “Os pais também são permissivos e têm uma cultura que favorece o consumo”.
 
Saúde
As consequências do abuso, além das sociais, também se refletem na saúde. Na fase aguda, os riscos a que os jovens ficam expostos devido ao consumo vão desde o sexo desprotegido a brigas e acidentes.
 
Na fase crônica, ocorre desde dependência a problemas relacionados a transtornos de humor, ansiedade, gastrite, hepatite, anomalias cardíacas e, ainda, aumento do risco de desenvolver câncer quando a pessoa também fuma cigarro.
 
“É cedo para afirmar que os jovens estão começando a consumir bebida alcoólica cada vez mais cedo”, adverte Camila. “O que sabemos é que as meninas têm bebido cada vez mais cedo, especialmente as universitárias, cujo consumo de álcool é igual ao dos homens. Mas não temos estudo de tendência no País”.
 
Dependência cruzada é comum
O consumo precoce de bebidas alcoólicas também pode ser considerado a porta de entrada para o uso de drogas. Exemplo disso é um programa de recuperação de dependentes químicos e de álcool mantido pela Igreja Cristo é a Resposta, de Santos.
 
O Operação Vida possui convênio comtrês casas de reabilitação. Atualmente, 60 pessoas, entre homens e mulheres, são atendidas.
 
“Recebemos mais viciados em drogas. Quando é dependência de álcool, são pessoas mais velhas”, explica o coordenador do programa, Silvio Carlos de Brito. “Mas posso dizer que 99% deles também dependem do álcool. Uma coisa puxa a outra”, diz, indicando o que se chama de “dependência cruzada”.
 
Como os atendidos pelo programa participam de uma entrevista antes da internação, Brito conhece de perto o problema. “Geralmente, começam a beber em casa. Depois, saem com os amigos para tomar cerveja. E não param mais”.
 
Sem limites
Na avaliação do responsável pelo Projeto Antitabágico da USP e pelas ações SBP na área, João Paulo Becker Lotufo, uma vez que os pacientes atendidos no Hospital Universitário ainda estão sob a tutela dos pais, professores e pediatras, esses poderiam exercer alguma influência para atrasar a introdução do álcool e minimizar suas consequências na vida dos jovens.
 
Ainda segundo Lotufo, avaliando-se apenas as intoxicações agudas nesses últimos 11 anos, verifica-se um predomínio na faixa dos 14aos25anos.
 
“Hoje, o jovem começa a fumar aos 11, 12 anos, beber aos 13 ou 14, continua tendo facilidade de adquirir álcool, com ou sem consentimento dos pais. É difícil encontrar festas de 15 anos sem bebida alcoólica”,afirma o pediatra.
 
A partir daí, é quase certa a entrada em outro grupo de risco. “Alguns adolescentes fumam maconha aos 14, 15 anos e outros partem para o crack aos 17, 18 anos”, destaca Lotufo. “A prevenção de drogas lícitas é importante, pois há uma ‘escalada clássica’, que começa com tabaco, álcool, e é seguida comas ilícitas”.
 
Dos que não bebem, conforme o pediatra, apenas 2% partem para as drogas ilícitas, e dos que não fumam, praticamente zero usam entorpecentes.