Pastoral da Criança transforma e salva vidas há 25 anos na Região


Jornal A Tribuna de Santos – Domingo, 24 de janeiro de 2010.

Baixada Santista
A-11


EXEMPLO. Iniciativa da médica Zilda Arns promove o desenvolvimento integral dos mais novos e possui grande legado na Baixada


Mortalidade de crianças de até um ano de idade acompanhadas pelo movimento é menor do que índice do Departamento Regional de Saúde


Números obtidos na região – 968 voluntários entre líderes, coordenadoras e monitoras participam ativamente da pastoral na Diocese de Santos



Pastoral da Criança transforma e salva vidas há 25 anos na região


SANDRO THADEU – DA REDAÇÃO



Alisson completa nesta segunda-feira 11 anos de idade. Seu principal sonho quando chegar a maioridade é se tornar um grande jogador de futebol. Sua inspiração? O meia Ronaldinho Gaúcho, do Milan, tradicional clube da Itália. Fôlego não o falta para que o ideal se torne realidade. No entanto, a história desse garoto da Vila Santa Casa, em Santos, poderia ter sido bem diferente. Quando pequeno, ficou internado por várias vezes. Sofria de anemia e tinha bronquite. O menino chegou a ficar na UTI, entre a vida e a morte. A mãe Marta Euzébio Bento chorava e pedia a Deus para cuidar da saúde de seu filho. Suas preces foram atendidas ao descobrir a Pastoral da Criança e a milagrosa multimistura. Daí para a frente, Alisson se desenvolveu plenamente. Os problemas respiratórios ficaram apenas na lembrança. Os médicos ficaram surpresos. A felicidade da família voltou. Situações como essa são comuns no movimento da região, desde 1985. Milhares de pequenos foram salvos graças ao trabalho de voluntárias, iniciado pela médica Zilda Arns, em 1983, uma das vítimas do terremoto que abalou o Haiti, no último dia 12. Após a cura, a mãe decidiu ingressar na pastoral. Primeiramente, tornou-se líder, cuja responsabilidade é fazer visitas domiciliares para conhecer as famílias, além de identificar situações de risco às gestantes e ao desenvolvimento pleno dos garotos e garotas. Uma das principais ações da função é o chamado Dia da Celebração da Vida, quando ocorre a pesagem dos pequenos com até 6 anos de idade. O encontro acontece uma vez por mês. É o momento de reunir as famílias das futuras mães e das crianças compartilharem momentos de felicidade e as dificuldades. Alisson faz questão de ajudar a mãe, atual coordenadora da área da Vila Santa Casa, na pesagem, que atende 96 crianças e 12 gestantes. Ele brinca com os amigos, ajuda a preparar o lanche para a comunidade. Um gesto sincero de amor que se repete no Brasil e no mundo. Um ato que salva e transforma vidas das famílias mais necessitadas, bem como dos milhares de voluntários que se dedicam para promover o bem-estar de outro ser humano.


VALORIZAÇÃO


Há 15 anos na Pastoral da Criança, a atual coordenadora do projeto na Diocese de Santos, Denacir de Moura, explica que começou o trabalho como líder e monitora da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Na opinião dela, um outro aspecto importante é valorização da mulher, após passarem pela capacitação de líderes feita em 52 horas. O público feminino representa mais de 95% dos integrantes do movimento. “A líder passa a compreender que pode e deve brigar pelos direitos da comunidade, passando abaixo-assinado ou cobrando dos políticos melhorias às crianças que acompanham todo o mês”. Além do acompanhamento familiar, a pastoral oferece o EJA. O curso possui hoje cerca de 300 alunos na região. Com o apoio da Petrobras, outra atividade é a transformação de garrafas pet em vassouras. O trabalho é feito no galpão da Rua Marquês de Herval, 24, no Valongo, em Santos. Doações podem ser feitas no local as terças, quartas e quintas-feiras,das14às18horas.



QUEM QUISER SE TORNAR VOLUNTÁRIO OU CONHECER MAIS SOBRE A PASTORAL DA CRIANÇA PODE ENTRAR EM CONTATO COM A COORDENADORA REGIONAL DENACIR PELOS TELEFONES 3235-4207 E 9786-9516


Núcleo Multiuso: Diocese é pioneira no País


Além de ter sido uma das primeiras dioceses a receber a Pastoral da Criança, a de Santos foi a primeira do Brasil a implementar os Núcleos Multiusos, um sonho de Zilda Arns que virou realidade em 2003. Nesses locais, as líderes, monitoras e coordenadoras do movimento podem realizar as atividades com as famílias num lugar mais adequado. As unidades possuem cozinha completa e sala de atendimento. Elas foram constituídas em parceria com a comunidade do entorno. A iniciativa se tornou viável graças à Associação Comunidade de Mãos Dadas (ACMD), fundada por empresários, em 1996, que tem como missão desenvolver projetos voltados para crianças e adolescentes. O presidente do Conselho Deliberativo da entidade, Eduardo Vianna Junior, explica que a recomendação de ajudar a Pastoral partiu de um pedido feito por Dom Luciano Mendes (um dos principais apoiadores da iniciativa) a um dos líderes da ACMD, o empresário Ronald Monteiro. “Nosso primeiro passo foi ir a Curitiba (PR), conhecer a doutora Zilda e perguntar o que poderíamos fazer para colaborar. Ela chamou os assessores para falar sobre o projeto dos Núcleos Multiusos e disse que seria um projeto pioneiro no País, caso aceitássemos essa missão”, justifica. A meta era construir 29 unidades em três anos, mas essa marca chegou a 30. A primeira foi inaugurada em novembro de 2003, na Igreja Sagrada Família, no Rádio Clube, em Santos, com a presença da então coordenadora da Pastoral da Criança. A última foi entregue em 7 de agosto de 2006, na comunidade Santo Antônio, em Guarujá. Na avaliação de Vianna Junior, o resultado final da parceria foi positivo. No total, foram investidos R$ 311 mil. Os recursos vieram de doações de pessoas físicas e jurídicas, assim como do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Santos.


Multimistura


Uma das principais marcas da Pastoral da Criança é o conceito de enriquecimento alimentar por meio do consumo de uma variedade de alimentos. Também costumou-se chamar de multimistura uma farinha rica em nutrientes, composta de farelos de cereais, trigo, arroz e pó de sementes, utilizada como complemento alimentar. Outros produtos da pastoral também bastante conhecidos são o xarope, a pomada, o xampu contra piolho e a geléia para combater vermes. Todos são feitos com ervas e frutas


Um começo repleto de dificuldades

Cair em valas, enfiar o pé na lama. Realizar reuniões no meio da rua ou nos quintais de barracos, até mesmo sob chuva, na favela do Chaparral, no distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá. Foi assim que a Pastoral da Criança nasceu na Diocese de Santos, em setembro de 1985. A região foi uma das primeiras do Brasil a iniciar esse trabalho. Conforme a assistente social Hilda Rocha Senger, o pedido de iniciar o projeto partiu do então bispo diocesano, dom David Picão. Ela foi uma das co-fundadoras do núcleo diocesano ao lado da irmã Erélide Oro. Na época, o religioso solicitou que a Coordenação Diocesana de Ação Social da qual Hilda fazia parte estudasse os documentos para viabilizara implementação do projeto o mais rápido o possível. “O dom David recebeu o pedido de começar esse trabalho aqui do cardeal dom Paulo Evaristo Arns. O nosso bispo abraçou a causa de imediato”, afirma. A co-fundadora da pastoral na região ressalta que não tem dúvidas que todo o esforço do passado valeu muito a pena. “A desconfiança da comunidade foi grande no começo. O trabalho de formiguinha deu certo. Muitas vidas foram e continuam sendo transformadas”, justifica.


História



A ideia inicial – Em maio de 1982, surgiu a ideia de criar a Pastoral da Criança. A ideia, em Genebra (Suíça), veio durante a conversa entre o então arcebispo de São Paulo, o cardeal dom Paulo Evaristo Arns, e o diretor-executivo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), James Grant. Naquele país, estava ocorrendo um debate sobre os problemas da pobreza e a paz no mundo

O convite – Diante disso, o arcebispo pediu a sua irmã, a médica Zilda Arns Neumann, que pensasse numa ação para combater a mortalidade infantil. A proposta da Pastoral da Criança dela foi aceita pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Então, a entidade indicou o então arcebispo de Londrina (PR), dom Geraldo Magella Agnelo, para acompanhar o projeto

A ação – Em setembro de 1983, teve início a experiência piloto da implantação da Pastoral da Criança numa comunidade de boias-frias de Florestópolis (PR), onde a mortalidade infantil era de 127 mortos para cada mil nascidos vivos. No ano seguinte, esse índice caiu para 28 falecimentos

Trabalho internacional – Além do Brasil, a Pastoral da Criança está presente em outros 19 países: Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, Timor Leste, Argentina, Paraguai, Honduras, México, Venezuela, Bolívia, Uruguai, Peru, Panamá, República Dominicana, Colômbia, Guatemala, Filipinas, Guiné e Haiti