Reportagens evidenciam exploração sexual infanto-juvenil na Baixada Santista e Vale do Ribeira

Uma pesquisa publicada pela WCF-Brasil, braço brasileiro da World Childhood Foundation, criada pela Rainha Silvia, da Suécia, apontou o Porto de Santos como um dos lugares onde a exploração sexual de crianças e adolescentes mais se evidenciou em território brasileiro. O levantamento intitulado “O Perfil do Caminhoneiro do Brasil”, ouviu 239 caminhoneiros de todo o país.


De acordo com as respostas dos motoristas, a exploração sexual infantil acontece no Nordeste (78,1%), seguido do Norte (30,6%). A região Sudeste foi apontada em 17,9% das respostas, com destaque para o Estado de São Paulo, sobretudo a região da Baixada Santista, caracterizada por sua zona portuária.


O Porto de Santos e Belém foram os lugares onde a exploração sexual de crianças e adolescentes foi mais notada. Sendo que no maior Porto da América Latina os entrevistadores optaram por pesquisar em apenas um turno devido ao clima de insegurança e desconfiança, segundo o levantamento.


O objetivo da iniciativa foi entender o universo do caminhoneiro, para poder combater e trabalhar com esse público, diversos temas, inclusive, a questão da exploração sexual. A pesquisa mostrou que 68% dos caminhoneiros conhecem o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).


A porcentagem de motoristas que disseram que é errado e são contra essa prática foi de 20,8%. Já 18% citaram o respeito por essas jovens, uma vez que elas poderiam ser suas filhas ou netas, como razão de nunca ter saído com crianças e adolescentes.


Reportagens – Em uma série de reportagens publicadas, de 21 a 25 de junho, no Jornal A Tribuna, a jornalista Thaís Lyra e o fotógrafo Davi Ribeiro retrataram a prostituição infantil em rodovias do Litoral ao Vale do Ribeira e no Porto de Santos. A jornalista foi quem sugeriu a pauta ao editor-chefe Wilson Marini, que abraçou a idéia, que contou com o apoio também de Arminda Augusto, editora-executiva do jornal. O que seria apenas uma reportagem, acabou se transformando numa série, devido a relevância do tema.


Na rodovia Régis Bittencourt (BR 116), que liga São Paulo ao Paraná foram flagradas crianças e adolescentes que ficavam paradas nos postos entre os caminhões. Em mapeamento realizado nas rodovias federais, em 2007, pela Polícia Rodoviária Federal juntamente com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostrou que há 1819 pontos vulnerabilidade relacionados à exploração sexual infantil.


No Estado de São Paulo, foram identificados mais de 400 desses pontos, sendo 44 nas margens da Régis Bittencourt, no Vale do Ribeira. São bares, postos, motéis, restaurantes, boates — localizados em áreas urbanas e rurais. O Vale do Ribeira se apresenta como vulnerável, ou seja, propenso à exploração sexual, pois entre outros fatores possuí facilidades de acesso, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixo — quanto mais alto o índice melhores oportunidades econômicas,  sociais, culturais e políticas — além do desemprego elevado.


As consequências desse tipo de exploração vão além da questão fisiológica, ou seja, o desenvolvimento do corpo. Há o lado emocional, — muitas das vítimas sentem angustiadas, confusas e apresentam dificuldade de estabelecer vínculos de confiança ou afetivos.  Um dos perigos, que as meninas exploradas sexualmente enfrentam é a transmissão do pouco afeto que ainda possuem para pessoas erradas. Inclusive, em alguns casos, para o próprio aliciador que as explora. Pois, algumas têm a falsa impressão de que são protegidas, por esses criminosos.


Após a divulgação das matérias, o assunto foi abordado numa reunião ocorrida na Prefeitura, foram tratados vários assuntos ligados à Segurança Pública. A Polícia Militar irá fazer uma abordagem em caminhões estacionados em locais indicados na reportagem de segunda-feira (22 de junho) intitulada “Mais perto do que se imagina”, com a intenção de identificar situações mostradas.


Entretanto, algumas ações já vêm sendo desenvolvidas pelas Polícias Militar e Civil e órgãos da Prefeitura de Santos em relação à exploração sexual de crianças e adolescentes em hotéis, cortiços e locais fechados. Já a Secretaria de Assistência Social de Santos promove reuniões, trabalhos em grupos, atendimento com assistente social e psicóloga e oficinas, além de projetos para a geração de renda como uma padaria.


ONGs — O Terceiro Setor também tem um papel importante na prevenção de várias questões referentes à exploração. A WCF-Brasil, por exemplo, realiza o programa “Na Mão Certa” que conta com a participação de 500 empresas que firmaram um pacto com a ONG, no sentido de trabalhar valores com caminhoneiros. Na Baixada Santista, especificamente em São Vicente, é desenvolvido o Projeto Camará, que atende 500 jovens — encaminhados por conselhos tutelares ou pelo Juizado da Infância e Juventude — em diversos programas.


Já em Santos, o Projeto Educacional de Conscientização e de Orientação (Proeco) visa à educação como forma de promoção dos recursos individuais, sempre com o objetivo ajudar meninos e meninas a fazerem suas escolhas com mais liberdade e responsabilidade. No local, são realizadas diversas oficinas como percussão, moda, serigrafia, empreendedorismo, incentivo a leitura, dança, circo, grafite e capoeira.


Serviço: Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes. Ligue: 100